julho 08, 2011

Falar a sério #1: Não é da morte que nascem as virtudes - Uma homenagem

Por momentos, a propagada consternação anónima – e de alguns sectores da política - pela morte de Maria José Nogueira Pinto fez-me pensar que estaríamos mais uma vez perante constatação da teoria lusa de que é da morte que nascem as virtudes. É bem português o espírito de consagrar qualidades a quem parte, daquelas que nunca lhe reconheceríamos em vida.
Perdoem-me se esta convicção muito minha revela falta de fé no ser humano, mas confesso que foi isto que pensei ao ler tantas mensagens de pesar pelo desaparecimento de Maria José. Não porque pense que a sua morte tivesse de ser irrelevante para a maioria dos seus concidadãos, pelo contrário. Mas a verdade verdadeira é que ao longo das batalhas que Nogueira Pinto travou na sua vida pública, nem sempre lhe foram remetidos tantos elogios (também pelo contrário).
Maria José Nogueira Pinto era uma mulher de muitas convicções, daquelas que no mundo e no tempo em que vivemos são, no mínimo, ousadas, embora repetidamente classificadas como conservadoras.
Maria José era católica, acreditava em Deus, vivia segundo os valores da Igreja… trilhava os caminhos de Cristo. E vivia isso sem qualquer pudor. Como deve ser. Maria José Nogueira Pinto era uma mulher de direita, o que, no sistema democrático português, é, no mínimo, considerado pouco democrático. E vivia isso sem qualquer hesitação.
Apesar de não ser moderno escolher a vida dos mais fracos em detrimento da nossa própria arbitrariedade, Maria José Nogueira Pinto fê-lo. E lutou por isso, como sempre lutou, de cara levantada, pelos princípios que nortearam com verdade toda a sua vida. Com verdade, repito, mas também com respeito por todos aqueles que pensavam de maneira diversa da sua. O inverso nem sempre aconteceu, como se os princípios de cada um – ou de alguns - fossem portadores de uma característica de exclusividade e obrigatoriedade, uma espécie de certificado de garantia de verdade absoluta. Maria José Nogueira Pinto viveu os seus princípios, integralmente, e ainda ousou ser patriota em Portugal. E ser português e patriota é quase crime de lesa pátria nos dias que correm.
Quero acreditar que as mensagens de pesar pela morte de Maria José são de facto a prova de que a justiça e a verdade não são conceitos indiferentes a todos e a cada um de nós, mas de facto não é isso que penso. Contra toda a Fé que se impõe na humanidade, julgo que a justiça do pesar por Maria José Nogueira Pinto chegou a alguns apenas da sua derradeira lição de vida. Como se a determinadas pessoas – só porque não se alinham por convenções de que se desconhecem os fundamentos - fosse exigido um esforço adicional, uma força quase desumana para que se lhes reconheça valor e dignidade.
Agora não é tempo de dissecar verdades, é certo… Até porque Maria José morreu e a cada vida que se perde exige-se união, misericórdia e pesar. Que a sua força e a persistência com que viveu até ao último sopro de vida possam fazer nascer em cada um nós, pelo menos, o sentido de pertença e de amor à Pátria que é nossa e ao Povo que somos… Para que nunca deixemos de lutar. E certamente nada nos faltará!

By éSe

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